Compaixão, a verdadeira expressão da não-violência

Minhas idéias a respeito da responsabilidade universal evoluíram do estudo das tradições antigas da Índia. Como monge budista, todo o meu treinamento tem raízes na cultura desse grande país. Em tempos antigos, a Índia produziu grandes pensadores, cujos insights em muito contribuíram para a evolução espiritual da humanidade. Mesmo hoje em dia, a Índia é uma inspiração, pois, diante de grandes vicissitudes, a democracia prospera.

      Ahimsa, ou não-violência, é uma idéia poderosa que o Mahatma Gandhi tornou conhecida em todo o mundo. A não-violência, na verdade, é algo mais positivo, mais significativo do que isso. A verdadeira expressão da não-violência é a compaixão. Algumas pessoas parecem pensar que a compaixão é apenas uma resposta emocional passiva, em vez de um estímulo racional para a ação. Experienciar genuína compaixão é desenvolver um sentimento de proximidade em relação aos outros, combinado com um senso de responsabilidade para com seu bem-estar.

      A compaixão nos impulsiona a fazer um esforço para nos comunicarmos com todos os seres vivos, incluindo os assim chamados inimigos, aquelas pessoas que nos aborrecem e que nos magoam. Independentemente do que elas lhes façam, se você se lembrar que todos os seres, tal como você, estão apenas tentando ser felizes, você verá que é muito mais fácil desenvolver a compaixão com relação a elas. Geralmente nosso senso de compaixão é limitado e tendencioso. Estendemos esses sentimentos somente à família e aos amigos, ou àqueles que nos são úteis. As pessoas que percebemos como inimigas e outras a quem somos indiferentes são excluídas de nossa preocupação. Isso não é compaixão genuína. A verdadeira compaixão é universal em escopo. É acompanhada do sentimento de responsabilidade. Agir de modo altruísta, preocupado apenas com o bem-estar dos outros, sem quaisquer outros motivos, é afirmar um senso de responsabilidade universal.

      Como monge budista, o cultivo da compaixão é uma parte importante da minha prática diária. Um dos aspectos envolve simplesmente sentar sossegado no meu quarto, meditando. Isso pode ser muito bom e muito confortável, mas a verdadeira meta em relação à compaixão é desenvolver a coragem de pensar nos outros e fazer algo por eles. Por exemplo, como Dalai Lama tenho responsabilidades para com meu povo. Alguns tibetanos estão vivendo como refugiados e alguns permaneceram no Tibet sob ocupação chinesa. Essa responsabilidade significa que tenho que enfrentar muitos problemas.

      Certamente, é mais fácil meditar do que verdadeiramente fazer alguma coisa pelos outros. Às vezes sinto que simplesmente meditar sobre a compaixão é assumir a opção passiva. Nossa meditação deve formar a base para a ação, para agarrar a oportunidade de fazer alguma coisa. A motivação daquele que medita e seu senso de responsabilidade universal devem ser expressos em ações.

      Quer sejamos ricos ou pobres, educados ou não, qualquer que seja a nossa nacionalidade, a cor de nossa pele, nosso status social ou ideológico, o propósito de nossas vidas é sermos felizes. A não ser que nossa mente seja estável, e calma, não importa o quão confortável possa ser nossa condição física, ela não nos proporcionará qualquer prazer. Portanto, a chave para uma vida feliz, agora e no futuro, é desenvolver uma mente feliz.

Saúde física, emocional e mental

      Um dos principais fatores que perturbam nossa tranquilidade mental é o ódio. O antídoto é a compaixão. Não devemos pensar na compaixão como sendo apenas a preservação do sagrado e do religioso. Ela é uma de nossas qualidades humanas básicas. A natureza humana é essencialmente amorosa e gentil. Não concordo com pessoas que asseguram que os seres humanos já nascem agressivos, apesar da aparente prevalência da raiva e do ódio no mundo. A partir do momento em que nascemos, precisamos de amor e afeição. Isso é verdadeiro com referência a todos nós, até o dia de morrermos. Sem amor, não conseguiríamos sobreviver. Os seres humanos são criaturas sociais e a preocupação de uns para com os outros é a própria base de nossa vida juntos. Se pararmos para pensar, comparados com os numerosos atos de gentileza dos quais dependemos e a que não damos tanta atenção, os atos de hostilidade são relativamente poucos. Para enxergar a verdade disso precisamos observar o amor e a afeição que os pais despejam sobre seus filhos, e os muitos outros atos de amor e carinho que para nós são como fato consumado. Pode parecer que a raiva ofereça uma maneira enérgica de se fazer obedecer, mas essa percepção do mundo é errônea. A única coisa certa a respeito da raiva e do ódio é que são destrutivos; nenhum bem jamais surge deles.

      Se vivemos continuamente motivados pela raiva e pelo ódio, até mesmo nossa saúde física deteriora. Por outro lado, as pessoas que permanecem calmas e que têm a mente aberta, motivadas pela compaixão, são mentalmente livres de ansiedade e fisicamente saudáveis.

      Numa época em que as pessoas estão tão envolvidas em manter sua saúde física por meio do controle da dieta, do exercício físico e assim por diante, faz sentido também tentar cultivar as correspondentes atitudes mentais positivas.

      Até aqui mencionei como uma perspectiva positiva pode afetar o indivíduo. É também verdade que quanto mais compassiva for uma sociedade, mais felizes serão seus membros.

      O desenvolvimento da sociedade humana está baseado inteiramente no fato de as pessoas ajudarem umas às outras. Todo indivíduo tem a responsabilidade de ajudar a guiar a comunidade na correta direção, e cada um de nós deve assumir essa responsabilidade.

      Se perdermos essa humanidade essencial, que é nossa fundação, a sociedade como um todo entrará em colapso. Que motivo haverá, então, para se buscar melhoria material, e de quem poderemos exigir nossos direitos? A ação motivada pela compaixão e pela responsabilidade trará, no final das contas, bons resultados. A raiva pode produzir efeitos em curto prazo, mas no final só nos trará problemas.
      O medo é outro grande obstáculo ao nosso desenvolvimento interior. O medo surge quando suspeitamos de todo mundo. É a compaixão que cria o senso de confiança que permite abrir-nos para os outros e revelar nossos problemas, dúvidas e incertezas. Sem ela, não conseguimos nos comunicar uns com os outros honesta e abertamente. Portanto, desenvolver a compaixão é uma das maneiras mais eficazes de reduzir o medo.

      A compaixão é uma qualidade fundamentalmente humana; assim, seu desenvolvimento não está restrito àqueles que praticam a religião. Apesar disso, as tradições religiosas têm um papel especial a desempenhar no encorajamento do seu desenvolvimento.

      Todas as religiões, quaisquer que sejam as diferenças filosóficas entre si, estão empenhadas em ajudar seus seguidores a se tornarem seres humanos melhores. Consequentemente, todas as religiões encorajam a prática da gentileza, da generosidade e a preocupação com os outros.

      É por isso que acho tristes e fúteis os conflitos baseados em diferenças religiosas. Acredito, com relação ao mundo em geral, que a compaixão é mais importante que a religião. A população do nosso planeta ultrapassa os seis bilhões de seres. Desses, apenas um bilhão segue ativa e sinceramente uma religião formal.

      Os cinco bilhões restantes são não-crentes no verdadeiro sentido. Se considerarmos o desenvolvimento da compaixão e de outras boas qualidades como problemas que só dizem respeito à religião, esses mais de cinco bilhões, a maioria, estarão excluídos. Como irmãos e irmãs, membros de nossa grande família humana, todos têm o potencial de serem inspirados pela necessidade da compaixão.

      Hoje em dia enfrentamos muitos problemas globais, como pobreza, superpopulação e a destruição do meio ambiente. Esses são problemas que temos que tratar juntos. Nenhuma comunidade ou nação pode esperar resolvê-los sozinha. Isso indica o quão interdependente nosso mundo se tornou. A economia global está se tornando também cada vez mais integrada, de modo que os resultados de uma eleição num país podem afetar o mercado de capitais em outro.

      Nos tempos antigos, cada aldeia era mais ou menos autossuficiente e independente. Não havia nem a necessidade nem a expectativa de cooperação com outros fora da vila. Sobrevivia-se fazendo-se tudo sozinho. Mas a situação agora mudou completamente. Tornou-se muito antiquado pensar apenas em termos de minha nação ou de meu país, muito menos de minha aldeia. A responsabilidade universal é a verdadeira chave para superar nossos problemas.

Fonte: Revista Sophia – Out-Dez 2009

~ por Cris Aragão em 22 de dezembro de 2009.

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