O Ronco não é brincadeira – do livro: “Durma bem para viver melhor”

 (Retirado do livro: Durma bem para viver melhor, p. 91-112)

Rio, 31 de janeiro de 2010.

POR QUE NÃO PROCURAMOS TRATAMENTO

Imagine-se andando em um trem ou ônibus lotado. O homem a seu lado começa a tossir… e tossir… e tossir. Como você reage? Esconde o rosto com jornal. Vira-se de costas ou se afasta dele. As pessoas ao redor começam a se afastar com medo de “pegar alguma coisa” ou por nojo – quanto pior a tosse, pior o barulho. Você tem certeza de que o Sr. Tosse percebeu tudo isso. Ele está com vergonha da reação que está causando nas pessoas ao redor dele e gostaria de desaparecer. Quando chega ao trabalho, os colegas dele o vêem e escutam tossir. E perguntam: “Você já foi ao médico?”. Eles estão preocupados não apenas com o fato de ele poder ter uma doença respiratória séria, como também com a possibilidade de ficarem doentes. A mesma coisa acontecerá em casa. Todas essas expressões de preocupação e pressões aumentam as chances de o Sr. Tosse ir ao médico.

O que isso tem a ver com o ronco? Bem, pense na pressão sobre o Sr. Tosse. Ele escuta a si mesmo tossindo. Sente. Acumula catarro em sua garganta. Vê as pessoas ao redor virando-se. Seus colegas e familiares o aconselham a ir ao médico. Ele sabe que a tosse pode indicar uma infecção ou algo mais sério.

Agora compare toda essa pressão social e pessoal com a que o Sr. Ronco tem de enfrentar. O Sr. Ronco faz mais barulho do que seu primo, o Sr. Tosse, mas ele dorme enquanto ronca e não sabe como ronca alto, a menos que alguém lhe diga. Estranhos nunca o escutam roncar, a menos que ele tenha a sorte de tirar um cochilo no trem indo para o trabalho. Quando ele chega ao trabalho, seus colegas não têm como saber que ele tem um problema, já que ele está (mais ou menos) desperto. Se ele cochilar em um show caro da Broadway, as pessoas podem dar-lhe tapinhas nos ombros ou sua esposa, ou namorada, pode cutucá-lo com o cotovelo, mas, como não existe risco de contágio, geralmente ninguém muda de lugar.

O ronco afeta apenas um pequeno grupo além do roncador, principalmente as testemunhas. Assim, há um tipo diferente de incentivo à idéia do cuidado médico, algo que chamamos de barulho socialmente inaceitável. Se o Sr. Ronco vive sozinho, ele pode não saber de seu problema. Há uma velha questão filosófica: se uma árvore cai na floresta e não há ninguém por perto, para ouvi-lo serrando troncos, ainda assim é um sintoma de problemas muito graves com potencial de grande risco.

Surpreendentemente, a testemunha e outras pessoas também podem estar em perigo. Se nosso roncador tem um companheiro de quarto, geralmente essa pessoa não pensa que o ronco possa lhe prejudicar a saúde, como aconteceria com a tosse persistente. O companheiro de quarto sofrerá com o comportamento e o descreverá com alguma das figuras de linguagem comuns: “Você roncou como um urso”, ou “Os vidros das janelas estão rachados”. Pior ainda, ele poderá dizer: “Eu tive e dormir no sofá”. E o pior de tudo, se o roncador for casado: “Não dá mais. Vou entrar em contato com um advogado.” Mas é pouco provável que o problema vá parar no consultório médico. O ronco é contagioso e perigoso. Não é o problema em si, porém, que “infecta” seu companheiro: o que seu parceiro “pega” é a falta de descanso. Na verdade, os companheiros de pessoas que roncam sofrem tanto quanto os próprios roncadores e têm uma grande chance de desenvolver distúrbios do sono.

Os parceiros das pessoas que roncam têm o sono interrompido 21 vezes por noite, em comparação com 27 dos roncadores. Esse nível de interrupção do sono é perigoso quando pensamos nas conseqüências da privação de sono durante o dia. Essas vítimas secundárias podem adormecer enquanto estiverem dirigindo ou operando maquinário. As pessoas prejudicadas quando elas cochilam poderiam ser vítimas de ronco de terceiro grau.

O ronco pode deixar os parceiros surdos – estudos canadenses mostraram que entre os companheiros de roncadores há uma grande incidência de surdez parcial no ouvido que fica virado para a pessoa que ronca. Além disso, há problemas psicológicos como depressão e ansiedade, entre outros, que podem ser causados ou potencializados pela falta de sono.

Mas nem todo mundo se irrita com o ronco. Às vezes, o barulho pode ser calmante. Certa vez, atendi um homem que roncava cuja mulher me procurou um tempo depois para tratar sua insônia. Ela estava tão acostumada a dormir com o barulho do ronco, que não conseguiu se adaptar ao silêncio.

A ANATOMIA DO RONCO

 Rio, 4 de fevereiro de 2010.

 O ronco é um subproduto do hardware e do software da face e das passagens de ar. O hardware é o conjunto de ossos da face, na parte de cima da arcada dentária (maxilar) e na parte debaixo dela (mandíbula). Eles formam uma caixa rígida que protege o software – o tecido macio no nariz e na garganta, que inclui a língua, a úvula e as tonsilas.

O ronco é a vibração desses tecidos na passagem do ar do nariz para o fundo da garganta. Mesmo que nunca tenha escutado seu próprio ronco, o que é bem provável, você certamente sabe como fazer o som do ronco. É possível que já tenha fingido estar dormindo ou tentado mostrar a uma pessoa como ela é tediosa fazendo o barulho do ronco. Você pressionou sua língua no fundo de sua garganta e inspirou fundo. O efeito é um ronco convincente.

As principais estruturas envolvidas quando você ronca são as partes de dentro e de trás do nariz: a nasofaringe, a orofaringe, que inclui as tonsilas e a úvula – a extensão central carnuda do palato mole que fica pendurada no fundo de sua boca, na hipofaringe.

É essa passagem vital que está envolvida tanto no ronco quanto na obstrução dos tecidos moles conforme o ar passa por eles.

O ronco está relacionado com o bloqueio, uma vez que tecidos inchados ou tecidos grandes têm maior probabilidade de vibrar ou raspar contra os tubos de ar próximos. Um inchaço, ou aumento, ou qualquer coisa que torne a passagem mais estreita vai contribuir para certo fechamento, ou apnéia. Qualquer estreitamento nas passagens superiores torna o trabalho de levar o ar para os pulmões muito mais difícil. Pense em como seria respirar por um canudo de coquetel em vez de por um canudo de refrigerante. O peito se esforça mais para puxar o ar para os pulmões. No processo, os tecidos moles se chocam e vibram.

Se quer ver o que acontece com a passagem de ar quando você ronca ou bloqueia completamente o fluxo de ar, como na apnéia, pegue o aspirador de pó. O motor do aparelho representa a parede do peito, que puxa o ar e se expande. A mangueira equivale às três divisões da faringe. A peça acoplada pela qual o pó e o ar entram corresponde ao nariz e à boca.

Ligue o aspirador. Agora ele está inspirando – um aspirador de pó não precisa expirar como uma pessoa, obviamente. Parece legal. Os únicos sons são os do motor e do ar. Agora, coloque sua mão na ponta da mangueira. O som muda. Pode emitir um assobio ou um som resfolegante. Se bloquear a entrada do ar completamente por alguns momentos, você não só vai sentir a pele de sua mão sendo sugada, mas a mangueira do aspirador vai entrar em colapso. Quando você usa o aspirador para aspirar o pó e tenta aspirar algo grande demais para passar pela mangueira, ela emite um som que parece um ronco. Na verdade, a mecânica do ronco é muito mais complexa, mas esse modelo simplificado nos ajuda a visualizar o resultado final: bloqueio ou estreitamento da passagem de ar.

Todos esses sons e atitudes físicas acontecem na respiração à noite. Na garganta, o barulho começa quando os tecidos, como a úvula e a língua, relaxam durante o sono, estreitando ou bloqueando as passagens de ar. Por que estão fazendo isso? Talvez você tenha ganhado peso e parte dele tenha ido para seu pescoço. Talvez seus pais roncassem e você tenha herdado deles a estrutura facial e o palato grande. Talvez algo esteja crescendo dentro de você que não deveria estar aí. Ou talvez suas alergias estejam causando secreção nasal e, quando você se deita ou coloca a cabeça no travesseiro, o inchaço e o muco estejam bloqueando o fundo de sua garganta. Mais importante, diferentemente da mangueira do aspirador, as paredes das passagens de ar ou dos músculos da faringe relaxam durante o sono e têm uma probabilidade maior de entrar em colapso.

Quando você usa o aspirador de pó e algo fica preso na entrada, você o remove, não só porque o barulho é horrível, mas porque vai demorar mais tempo para limpar o carpete por causa da redução da força de sucção. A longo prazo, o motor também pode ser prejudicado.

O bloqueio da passagem de ar à noite não pode ser “consertado” de forma rápida e fácil. Você não toma uma atitude para resolver o problema na hora. Noite após noite, você ignora a questão ou simplesmente não sabe de sua existência, e, como o aspirador de pó, seu peito tem de fazer um esforço redobrado para puxar a quantidade de ar necessária.

Se a apnéia ou o bloqueio for grave, você ficará com falta de oxigênio. É como se você estivesse dormindo com um saco na cabeça. Em vez de respirar a quantidade de ar de que precisa, todo esse tecido mole está entrando em colapso, o que não é bom. Após um tempo, esses tecidos vão inchar e perder a resiliência natural.

Vamos estudar o impacto da apnéia no corpo no próximo capítulo. Por enquanto, o ronco tem seus próprios problemas. Pense no que toda a vibração está causando a seu corpo! Pense na última vez em que ouviu um barulho estranho ou sentiu vibração no carro ou qualquer outro equipamento caro. Você sabe, por experiência própria, que se, ignorá-los, terá problemas mais tarde. O mesmo acontece com a vibração e o barulho a noite toda em sua cabeça.

ACORDANDO PARA OS PERIGOS DO RONCO

Rio, 3 de fevereiro de 2010. 

Antigamente, se as pessoas que roncavam procuravam um médico, ele simplesmente prescrevia tampões de ouvido para o cônjuge que reclamava.

No entanto, isso não quer dizer que as pessoas não iam ao médico para tratar problemas relacionados ao ronco. Elas iam ao médico para tratar coisas como hipertensão, diabetes, doenças cardíacas e vasculares, tudo que poderia muito bem estar relacionado com apnéia e ronco, mas ninguém sabia.

Isso está mudando. Está mudando para você e para seus entes queridos agora, porque você está lendo este livro. Uma consulta com o médico da família para o tratamento desses e de outros problemas logo incluirá perguntas de rotina a respeito de seus hábitos de sono. A maioria dos médicos aconselha os pacientes com problemas como hipertensão e diabetes a deixar de ingerir hambúrgueres cheios de óleo, fritas e refrigerantes e a fazer mais exercícios. Agora, graças às organizações como os Institutos do Coração, as Clínicas de Pneumologia e distúrbios do Sono, os Institutos do Sono e os Centros de Medicina do Sono, eles também podem pedir que você mude sua maneira de dormir.

A noite é um terço de sua vida. Não deve ser ignorada. Se você tem um problema relacionado ao sono sem tratamento, seu corpo está sofrendo e você está pagando por isso.

            MÁS VIBRAÇÕES

Rio, 7 de fevereiro de 2010.

Até que ponto a vibração do ronco prejudica o corpo? A ciência está descobrindo, mas a resposta simples é “muito”.

Audição

Pesquisas em cobaias mostraram que a exposição à vibração do corpo a longo prazo prejudica os tecidos do ouvido interno. Quanto mais forte for a vibração e quanto mais perto da origem, maior é o prejuízo. Os autores do estudo concluíram: “Os resultados demonstram o efeito prejudicial da vibração mecânica no ouvido interno. De acordo com o modelo observado, podemos esperar um aumento do prejuízo da audição de baixa e média frequência em pessoas expostas a vibrações do corpo”.

Não se esqueça: seus ouvidos estão perto de sua garganta! Você acha que seu tio Eugênio é surdo só porque está ficando velho? Talvez ele ronque!

A vibração pode prejudicar suas veias. Um grupo de pesquisadores em Wisconsin estudou os efeitos da vibração em rabos de ratos, que contém artérias e nervos parecidos os da mão humana. Os rabos seletivamente vibraram por um ou nove dias. Uma sessão de quatro horas prejudicou as células endoteliais, que alinham as veias e as artérias. A vibração por nove dias causou perda e afinamento dessas células e ativação das plaquetas, cobrindo o tecido subndotelial exposto. As plaquetas ficaram mais largas e se acumularam nos vasos sanguíneos, onde não podem ficar. O acúmulo de plaquetas e o estreitamento das veias é um fato conhecido por aumentar chances de bloqueio das artérias do coração e de infarto. Outro estudo usando laser Doppler mostrou que mesmo cinco minutos de vibração diminuíam significativamente a perfusão de sangue no tecido, que é a capacidade de o sangue irrigar tecidos com oxigênio e outros nutrientes.

Nervos

Empregos nos quais os trabalhadores se expõem a vibração e barulho têm se mostrado capazes de danificar o sistema nervoso de maneiras que prejudicam as funções cardiovasculares. Com o tempo, essa exposição prejudica o desempenho no trabalho. Essa é uma das razões pelas quais há limites máximos do nível de decibéis no ambiente de trabalho. Níveis que excedem esses limites podem paralisar uma empresa. Ainda assim, algumas pessoas que roncam fazem barulho que excede os níveis que fariam com que seu ambiente de trabalho fosse interditado.

O prejuízo causado aos nervos pelo ronco também pode ferir suas passagens de ar. Como você sabe pelo aspirador de pó, a saúde do equipamento depende do fluxo livre de ar para dentro e para fora. Há um equilíbrio entre a pressão nos tecidos que expandem e contraem os pulmões. Durante o sono, essa ação acontece automaticamente, controlada pelo sistema nervoso.

As terminações nervosas na mucosa da faringe – as membranas mucosas que a percorrem – agem como sinais de trânsito guiando o movimento da entrada de ar e se comunicando com o cérebro, dependendo de você estar inspirando ou expirando. Como veremos com mais detalhes na discussão da apnéia do sono no próximo capítulo, o mecanismo de controle é muito sofisticado e literalmente o salva de morrer engasgado centenas de vezes durante a noite.

No entanto, a vibração crônica dos tecidos ao redor dessas terminações, quando você ronca, por exemplo, pode prejudicá-las. Estudos têm constatado que a maioria dos pacientes com ronco forte e problemas respiratórios apresentava sinais de lesões nos tecidos nervosos da faringe. Essas lesões podem contribuir para o colapso da entrada de ar superior.

COISAS QUE DEVEM SER ANALISADAS

Rio, 10 de fevereiro de 2010.

Geralmente, você não escuta seu próprio ronco. Então, como poderá saber se ronca ou não? Aqui estão alguns fatores físicos, médicos e ambientais que aumentam sua chance de roncar e que você e seu médico podem procurar.

Externos: obesidade ou pescoço muito grande. Se seu colarinho está mais apertado que antes, você pode ser um roncador.

Internos: inchaço dos tecidos, pólipos nasais, inchaço alérgico forte no nariz e na garganta, palato, língua, tonsilas ou adenóides grandes.

Problemas de saúde que enfraquecem os músculos da garganta: apoplexia, mal de Parkinson.

Estilo de vida: dieta rica em carboidrato, exposição a alergênico inaláveis ou irritantes ao aparelho respiratório, como tintas e solventes, uso de tabaco, álcool ou remédios para relaxar ou sedar.

Comportamental: sono excessivo durante o dia. Esse é o pior; um sinal claro de que alguma coisa está errada à noite.

Você é um Violino ou Violoncelo?

O volume do barulho que você faz ao roncar e o nível de vibração que inflige ao corpo e aos ouvidos de seu parceiro de cama dependem muito de sua estrutura. Outra maneira de entender isso é imaginar seu aparato vocal como um violoncelo ou um violino. O ar que passa pelos tecidos moles de sua garganta é como um arco indo e voltando nas cordas. A vibração resultante ressoa no interior do “instrumento”, que, dependendo do tamanho e formato, produz um nível diferente de barulho. Algumas pessoas são como violinos, outras são como violoncelos, e outras, ainda, são como outros instrumentos de cordas.

Os ossos de seu rosto podem oferecer-lhe bastante espaço para respirar. Se, no entanto, essa caixa rígida for mais estreita, em conjunto com tecidos moles maleáveis no relaxamento do sono, pode ser que produza um som terrível. Infelizmente, independente de sua estrutura lembrar mais um violino ou um violoncelo, o som que ela faz será mais parecido com o som de alguém que está começando a aprender a tocá-lo, e não com Isaac Stern ou Yo-Yo Ma. Se eu pudesse roncar Mozart, provavelmente o faria.

Você pode avaliar sozinho se tem mais ou menos tendências a roncar.

 

Autoavaliação

Passo 1: Comece analisando o formato geral de seu rosto.

Peça para alguém fotografá-lo de perfil ou fique diante do espelho de mão virado para o lado e a um ângulo de modo a refletir seu rosto de perfil.

Para avaliar, a tendência ao ronco, eu analiso as três formas básicas da mandíbula, como mostram as figuras da página seguinte. (peço desculpa aos leitores, mas não conseguimos incluir as fotos do livro aqui).

Como a língua está ligada à parte interna da mandíbula, quanto menor e mais pra trás for a mandíbula, maior é a chance de a língua ir para o fundo da garganta e bloquear a passagem da respiração enquanto você dorme. Os dentistas geralmente identificam a posição retraída da mandíbula em pacientes com sobressaliência ou má-oclusão.

Isso acontece mais quando você está deitado de barriga para cima sonhando ou no sono REM, quando seu corpo fica paralisado com atonia (veja o Capítulo 2) e os músculos de sua língua também estão relaxados.

A língua, nós sabemos, nos ajuda a falar e a engolir os alimentos. No entanto, o que não é tão óbvio é que ela nos ajuda a mover o ar e respirar. Essa função torna-se muito mais difícil se o formato da mandíbula, da cavidade oral ou da língua for desproporcional ao formato geral do rosto. Por exemplo, as pessoas com língua muito grande, o que ocorre em uma doença chamada macroglossia, que geralmente acomete pessoas com alterações visíveis nos níveis de hormônios do crescimento, têm uma problema específico. Isso poderia ser bom se você fosse Gene Simmons, vocalista da banda de rock Kiss, cuja marca é uma língua maior do que o normal, que ele frequentemente põe para fora quando está fazendo show. Mas eu fico preocupado, imaginando se a língua dele afeta seu sono.

Mesmo aqueles com língua de tamanho normal podem ter problemas se a língua for desproporcional ao tamanho da cavidade ou dos ossos que a cercam. Durante o sono, quando o músculo da língua não está sendo usado para falar ou engolir, ela pode cobrir o espaço para a respiração. Se você ronca, faça o exercício a seguir (não tente isso se você tiver um problema na mandíbula, como junção temporomandibular, ou movimentos mandibulares limitados ou assimétricos).

Sentado, com a boca entreaberta, inspire três vezes tentando roncar. No meio da terceira inspiração, coloque a mandíbula para a frente até onde conseguir, sem forçar. Se o ronco ficar menos intenso ou sumir, você logo perceberá a importância da língua e da mandíbula para a passagem de ar. Esse exercício simples não é um teste infalível para detectar um problema de saúde, mas ajuda a entender como a língua altera a passagem de ar.

Rio, 14 de fevereiro de 2010.

Passo 2: Veja novamente o diagrama apresentado na página 88 (reproduzido aqui na parte de cima), agora com os respectivos perfis (na parte de baixo). (Desculpe, não conseguimos reproduzir a imagem aqui).

Normalmente, você deveria conseguir ver o fundo de sua garganta, chamado de parede faríngea (ou fundo faríngeo) posterior. O palato mole termina na úvula.

Quando o palato é muito comprido ou largo, ou incha por causa de alergia, do trauma do ronco ou por outro motivo, ele pode produzir congestionamento no fundo da garganta e estreitar o espaço da respiração. Se você consegue ver o fundo de sua garganta depois da úvula, é um bom sinal. Se não consegue, então seu palato pode ser comprido ou largo demais para o formato de sua boca ou pode haver inchaço causado pelo trauma do ronco ou por alergia. Outra possibilidade é a de o palato ser grande em relação ao formato do rosto, da mandíbula ou da língua.

Diga “Ah” e Viva Mais

Qual a utilidade do método descrito acima? Posso estar exagerando, mas diria “extremamente útil”. Os anestesistas têm usado esse recurso visual simples há muitos anos para prever se a passagem de ar ficará segura durante o relaxamento dos músculos associados com a sedação e a anestesia.

Diversos estudos mostram que a combinação de ronco, pescoço grosso, obesidade, orofaringe congestionada, que não lhe permite ver o fundo de sua garganta, e o excesso de sono durante o dia é indício de apnéia do sono. Sempre que observo um paciente dormindo em minha sala de espera e percebo obesidade e pescoço grosso e curto, tudo o que me resta é lhe perguntar se ele ronca. Depois, um simples “diga ‘ah’” me mostra se o fundo da garganta é “congestionado”. Em caso afirmativo, o paciente provavelmente tem apnéia obstrutiva do sono.

A Genética do Ronco

Costumamos nos parecer com nossos pais, e geralmente podemos distinguir parentes em meio a muitas pessoas. Coisas como peso, altura e cor dos olhos são exemplos de características familiares. Sabemos agora que o ronco e a apnéia também são passados de geração a geração. É razoável esperar que a parte de dentro da boca reflita as estruturas craniofaciais externas. Se você ronca, talvez tenha o nariz do papai, a mandíbula da mamãe, o pescoço curto e grosso do vovô e o palato da vovó!

“Depois de uma longa doença”

Como a maioria dos norte-americanos, fiquei muito triste ao saber que Bob Keeshan, conhecido por gerações de fãs como Captain Kangaroo, morreu no início de 2004. Ele tinha 76 anos e, se não era jovem em termos históricos para os dias de hoje também não era muito velho. Um obituário trazia as palavras “depois de uma longa doença”. Em um outro estava escrito que ele sofria de problemas cardíacos desde 1980.

Muitos anos antes de morrer, no início da minha prática na medicina do sono, estava assistindo ao Captain Kangaroo com meus filhos. Durante uma risada exagerada, Captain abriu sua boca para a câmera. O close mostrava uma boa congestionada com uma língua grande. Pensando bem, ele devia encaixar-se no perfil: pescoço grosso, garganta congestionada e voz grossa.

Tais descrições, quando vistas separadamente, não caracterizam a apnéia do sono. Quando há uma mistura de fatores físicos como garganta congestionada e histórico médico para apoiar o diagnóstico, esse problema passa a ser levado em consideração com um bom nível de certeza.

Passo 3: Analise suas tonsilas.

O próximo passo no autoexame envolve observar o estreitamento da garganta na altura das tonsilas, abaixo da ponta da úvula e no final do palato mole. As tonsilas geralmente se escondem dos dois lados da língua em duas pequenas cavidades chamadas criptas tonsilares. Nos adultos, é difícil ver as tonsilas, a menos que elas estejam inchadas por infecção ou inflamação por uma doença ou alergia. Nas crianças, as tonsilas inchadas e as adenóides aumentadas são as causas mais comuns de ronco ou obstrução da respiração. Quando as tonsilas ou os tecidos perto delas aumentam no meio da garganta, geralmente há um ronco significativo. Esse quadro é preocupante, já que pode levar a problemas futuros, como o bloqueio e a apnéia. Isso é visto nas figuras 4 e 5 do diagrama a seguir. A posição número 5 também é chamada de tonsilas próximas. A tonsila, a cripta ou qualquer tecido nessa área pode obstruir a passagem de ar e causar o ronco ou a apnéia.

Rio, 17 de fevereiro de 2010.

Passo 4: Deixe fluir. Deixe fluir. Deixe fluir.

Como a garganta, o nariz e a nasofaringe – a passagem estreita logo atrás das narinas – também têm hardware e software. Um septo desviado é um problema de hardware: o septo, a cartilagem que separa as passagens nasais uma da outra, é torto, e não reto, o que prejudica o fluxo direto do ar pelo nariz.

A nasofaringe pode ser o ponto mais estreito ao longo da entrada de ar superior e pode precisar de ajuda para manter-se aberta. Se você gosta de futebol americano, provavelmente assiste muitos jogos de futebol na TV e certamente já viu muitos jogadores usando um adesivo no nariz que parece uma borboleta. Eles fazem isso porque esse adesivo lhes dá a sensação de respiração desobstruída. O ar parece passar sem dificuldades pelo nariz mesmo durante as corridas. Os jogadores com o adesivo precisam de todo o ar que puderem respirar. E você também.

Para ver como os dilatadores nasais funcionam, fique diante do espelho e respire com força, mantendo a boca fechada. As paredes externas das narinas entrem em colapso para dentro. Agora, aperte as narinas, puxe-as para baixo e solte-as. Tente respirar. O que acontece é que, evitando o colapso das narinas, você sente mais ar indo com mais rapidez para seus pulmões. Seu peito não tem de fazer tanto esforço para puxar o ar. Essa facilidade maior é claramente um benefício para o jogador de futebol americano – ele ganha mais ar sem precisar abrir a boca para respirar -, coisa difícil de fazer com um protetor de boca.

Quando dormimos, precisamos dessa mesma passagem livre. A respiração nos diversos estágios do sono não é uniforme. Seu corpo pode estar descansando, mas sua mente, dependendo do estágio do sono, pode estar trabalhando muito mais. Durante o sono REM, você pode estar sonhando que está correndo ou fugindo de um monstro. O nível de respiração e o esforço mudam durante alguns estágios do sono. Outro princípio na física do fluxo de ar mostra que, quanto mais rápido o ar passa por um tubo macio, mais probabilidade as paredes do tubo têm de entrar em colapso no caso de estreitamento no final dele. Lembre-se de que as paredes das passagens de ar são muito flexíveis durante o sono.

 

Melhores Resultados

O adesivo funciona melhor para pessoas com nariz estreito, cujas narinas são mais parecidas com fendas, e não têm o formato oval tão comum. Ele também pode ser útil para pacientes com o tipo de desvio de septo nasal que faz a cartilagem do nariz entortar e bloquear a abertura.

 

Exame Simples do Fluxo de Ar

Eu uso um método simples para testar o fluxo de ar. Comece assoando o nariz, para que ele fique o mais limpo possível. Com a boca fechada, bloqueie uma narina colocando um dedo e apertando a parede externa. Agora, respire pela narina livre. Mude os lados. Se houver uma diferença no fluxo de ar, você vai percebê-los imediatamente.

Esse teste apenas mostra que pode haver uma diferença no fluxo de ar entre os dois lados. O nariz é uma estrutura complexa e pode haver muitos motivos para o bloqueio total ou parcial. Um otorrinoralingologista pode lhe dizer mais sobre as causas de qualquer diferença, como um desvio de septo nasal ou pólipois nasais – prolapsos nas mucosas nasais -, usando um aparelho de fibra óptica para olhar da ponta do nariz ao fundo da garganta. A gripe e as alergias podem produzir um inchaço extra dos tecidos e transformar bloqueios parciais em bloqueios totais.

 

Boca seca de manhã

Como isso afeta seu sono? Os adultos normalmente respiram pelo nariz quando dormem, e, se o nariz está bloqueado por algum motivo, a boca fica aberta. O resultado? Ronco. Você já acordou com a boca seca depois de uma noite com o nariz entupido? O motivo provavelmente foi esse.

Fato pouco conhecido. As narinas alternam-se na tarefa de respirar. Elas se abrem e fecham em ciclos de aproximadamente 90 minutos, que parecem coincidir com o ciclo REM. Pense nos problemas que isso pode causar. Se seu lado direito estiver bloqueado permanentemente devido a um desvio de septo, por exemplo, e o lado esquerdo estiver em um ciclo fechado, ocorrerá o fechamento dos dois lados. O resultado é a respiração pela boca.

No centro do sono, chamamos isso de “fluxo de ar pelo nariz reduzido”, que é um item importante em nossa lista de coisas que podem contribuir para o ronco e o sono interrompido.

Pingar, Pingar, Pingar

As alergias que aumentam cada vez mais em todas as camadas da população, são um problema de software. Os tecidos moles das cavidades nasais não apenas incham com a inflamação, como também as membranas mucosas trabalham dobrado para expulsar o pó e outras substâncias que, para a maioria das pessoas, são completamente inofensivos. A combinação de inchaço e umidade é ruim para a respiração normal durante o sono, porque os fluidos não têm a oportunidade de escorrer, aumentando a possibilidade de ocorrência do ronco e de respiração errada durante o sono.

O MODELO DE TRÊS NÍVEIS – QUAL É O SEU?

Rio, 19 de fevereiro de 2010.

Até aqui discutimos como o ronco pode estar ligado ao formato da garganta e ao estado das vias aéreas superiores em geral. Entretanto, há fatores invisíveis envolvidos também. O ronco acontece ao longo das passagens de ar da ponta do nariz às cordas vocais ou caixa de voz. Como mencionado, essas passagens são divididas em três partes, chamadas nasofaringe, orofaringe e hipofaringe. Naturalmente, um pouco do que acontece lá dentro você não consegue observar por si só.

Exemplos de problemas que podem contribuir para a ocorrência do ronco em cada um desses níveis incluem:

Nível 1: pólipos nasais, desvio severo de septo, aumento das adenóides (tecido esponjoso entre o fundo do nariz e da garganta), nariz pequeno, sinusite (inflamação não alérgica dos seios da face), alergias.

Nível 2: palato aumentado ou inchado, úvula aumentada, tonsilas aumentadas, língua grande.

Nível 3: fundo da língua grosso, mandíbula pequena posicionada em direção ao espaço de ar.

Estudos têm mostrado que grande parte do ronco envolve a vibração do tecido em conjunto com pelo menos dois desses três níveis, geralmente os níveis 2 e 3. Mas existem exceções.

Um exemplo de ronco de nível único e apnéia associada é a criança com tonsilas ou adenóides aumentadas. No Centro do Sono, geralmente vemos reversão completa de respiração incorreta em crianças depois que as tonsilas e/ou adenóides são retiradas. O mais comum em adultos é o bloqueio que acontece quando a úvula atinge o fundo da língua.

Acredito que a importância dos problemas do nível 1 não é levada a sério. A obstrução da nasofaringe cria espaço para níveis mais avançados de disfunção respiratória porque a pressão nos tecidos da nasofaringe prejudica outros tecidos mais para dentro das vias aéreas. Lembre-se do aspirador de pó: quando você obstrui a entrada da mangueira, há maior probabilidade de o aparelho parar de funcionar, uma vez que o motor se esforça muito mais para puxar o ar.

Os alergistas costumam dizer “Uma passagem de ar, uma doença”, porque eles vêem uma relação entre as alergias nasais e a asma. Ignorar as alergias nasais aumenta a chance de uma inflamação alérgica acontecer no restante da passagem de ar. Acredito que essa mesma frase possa ser usada em outras questões respiratórias. Na verdade, estudos recentes enfatizam a importância do bloqueio de “nível 1” como um fator que contribui para muitos problemas de respiração durante o sono.

Os roncadores de nível 1 podem não ter problemas de níveis 2 e 3. Mas a obstrução na nasofaringe, que é, afinal a primeira parada da entrada do ar durante o sono, reduz o fluxo de ar mais adiante na passagem de ar. A inflamação, o estresse e as sobrecargas nesses tecidos originariamente saudáveis podem alterá-los e torná-los mais propensos a bloqueios posteriormente.

Posição do Corpo e Estágio do Sono

O ronco geralmente fica pior quando dormimos de barriga para cima, porque a gravidade coloca a língua para trás, contra a passagem de ar. Esse relaxamento da língua e dos outros tecidos macios e músculos no fundo da garganta causa bloqueio parcial da entrada de ar, resultando em ronco alto ou, no caso de bloqueio total, em apnéia.

Durante estudos do sono, vemos o ronco mais intenso durante o sono REM, quando sonhamos. Isso acontece porque seus músculos estão sem movimento. Quando chegamos ao sono REM deitados de barriga para cima, o barulho pode ficar muito alto. (Para quem ronca, dormir com um parceiro ao lado causa outro prejuízo – danos às costelas. Não se trata de algum problema orgânico, mas, sim, do resultado do trauma contínuo causado pelos cutucões do cotovelo do parceiro nas costelas de quem ronca.)

Entre bloqueio parcial e bloqueio total

A síndrome da resistência das vias aéreas superiores é uma coleção de sintomas, descobertas físicas pelo exame compreensivo de um médico e descobertas de um estudo laboratorial do sono que são mais significantes do que o ronco comum, mas não tão fortes quanto à apnéia obstrutiva. Essa condição pode ser vista como um meio-termo entre os dois em questão de gravidade, mas diferente de diversas maneiras. O ronco pode estar presente, mas nem sempre. O sono é prejudicado por causa do estreitamento nas vias aéreas superiores, mas sem bloqueio total. O fluxo de ar reduzido prejudica o sono contínuo e restaurador com minialertas frequentes que aparecem no EEG (eletroencefalograma ou na onda de atividade cerebral) durante um estudo do sono, e pode não ser detectado de outra maneira. A síndrome é mais comum em mulheres e deve ser levada em consideração quando a causa de sono excessivo durante o dia não está clara.

Quando o ronco é muito forte, mas não está associado a obstrução definitiva ou apnéia e, quando existe um histórico pessoal de hipertensão e problemas cardiovasculares, alguns especialistas do sono o chamam de “doença do ronco forte”. Existem cada vez mais fatos que apóiam a idéia de que o ronco forte prejudica as estruturas próximas, além de piorar com a obesidade. Já que a obesidade é também um fator de risco para outros problemas de saúde, é preciso que mais estudo seja dedicado para indicar outros fatores, e ficar mais fácil distinguir o ronco da doença do ronco forte. As pesquisas na área sempre se voltam para os fatores de risco genéticos ou para as combinações únicas de anatomia e química corporal, que podem surgir em testes de laboratório.

Independentemente de você ter a doença do ronco forte ou ser alguém que ronca forte, o problema tem de ser tratado.

O ronco pode ser um sinal de problema de saúde sério. Se estiver preocupado depois de ler este capítulo, converse com seu médico, que pode lhe indicar um otorrinolaringologista. A informação obtida com o exame feito por esse especialista será combinada com o resto de seu histórico e exames para chegar a um diagnóstico provável. Conclusão: acredito que qualquer som que você emita regularmente pela boca ou nariz durante o sono não é parte natural de um bom descanso. O ronco é exceção.

Amor e Luz,

Carol

 


2 Respostas to “O Ronco não é brincadeira – do livro: “Durma bem para viver melhor””

  1. Excelente texto.

  2. MUITO BOM, EXCELENTE MESMO. GOSTARIA DE MAIORES INFORMAÇÕES, SE POSSÍVEL. SOBRE O LIVRO E O SONO.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: